segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Gazeta do Povo: O martírio da saúde no Boa Vista

Bastam cinco minutos em frente ao número 3.654 da Avenida Paraná, em Curitiba, para se escutar várias reclamações sobre o sistema de saúde da capital. Na calçada em frente ao Centro Municipal de Urgências Médicas (CMUM) do Boa Vista, as pessoas compartilham as histórias de dificuldade que algum familiar enfrentou para ser atendido. A apreensão pode durar apenas algumas horas, como ocorreu com a dona de casa Leodina da Silva Santos, 47 anos, ou perdurar até hoje, para a infelicidade de Silvia Mara Gonçalves, de 28 anos.

O CMUM vive lotado, e não é para menos. A Regional Boa Vista é a mais populosa de Curitiba, com 248,6 mil moradores (14,2% do total). Na manhã de quinta-feira passada, Leodina estava torcendo para que fosse encontrada uma vaga em hospital para o filho, que necessitava de uma cirurgia de apêndice. Ela e a filha, Elivânia, estavam apreensivas com a demora, pois o jovem, de 18 anos, já sentia dores desde terça-feira.

Na calçada do CMUM, Leodina e Elivânia conversavam com outras pessoas sobre a situação. “Como é que uma cidade desse tamanho não tem vaga no hospital? O que parece é que estão só pensando na Copa, em arrumar ruas e estradas, e estão deixando de lado a coisa mais importante, que é a saúde”, diz Elivânia, de 26 anos, que faz faculdade de secretariado executivo. Felizmente, ainda na quinta-feira à tarde o irmão dela foi levado ao Hospital do Trabalhador para ser operado.

Sem UTI

A angústia de Silvia está sendo mais longa. Na terça-feira de manhã ela saiu de casa correndo para levar à mãe ao CMUM. Os exames também demoraram para serem feitos, e o diagnóstico foi de derrame – ela precisava de uma vaga de UTI, que não tinha aparecido até o domingo à tarde. Na quarta-feira, a mãe de Silvia tinha uma tomografia às 16h30, no Hospital do Idoso. “Mas ela foi transportada apenas às 19h30, porque antes não havia ambulância com respiradouro. E de noite, a ambulância teve que correr, porque o oxigênio acabou”, relata. Ontem, a mãe ainda aguardava a vaga. “A situação dela melhorou, então estão passando as vagas que abriram para os doentes com caso mais grave, mas ela ainda precisa”, conta Silvia. Ela, que trabalha como doméstica, perdeu serviço vários dias para ver a mãe nos horários de visita – o CMUM fica distante de sua casa, no Pilarzinho.

Na Unidade de Saúde Fernando de Noronha, a espera por uma consulta também é grande, mas Roseli Aparecida Campos de Souza, 42 anos, avalia que o atendimento está bom. Ela, que trabalha como diarista, tem uma casa à beira de um córrego na Bacia do Atuba, no bairro Santa Cândida. A proximidade com a água não a assusta; Roseli disse que está muito satisfeita com sua moradia e que não tem planos de sair de lá. A casa em que habita é da família do marido, e já tem quase 30 anos, segundo ela. “A prefeitura já falou que não dá para fechar, mas a gente queria que trouxessem mais terra, para não desmoronar. Meu marido plantou umas árvores, para ver se ajuda.” Eles tentam cuidar do local, mas vem muito lixo da correnteza acima. “O povo não cuida, é uma pena.”

Matéria do Jornal Gazeta do Povo

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