segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Especial: O câncer perde a força

O medo não impera mais: Antes, uma das doenças mais temidas no mundo era vista como sinônimo de sentença final. Hoje já existem pesquisas que confirmam o oposto e até há exames capazes de demonstrar se a pessoa terá câncer ou não

Armando Pomini Professor da UEM, Doutor em Química Orgânica e responsável pela pesquisa
Armando Pomini
Professor da UEM, Doutor em Química Orgânica e responsável pela pesquisa
Até algum tempo, a palavra “câncer” assustava tanto que sequer era pronunciada em algumas famílias. Até hoje pessoas mais velhas não gostam de falar na doença. Isso porque o problema já foi considerado uma sentença de morte precoce, mutilação em cirurgias e causador de grande debilidade aos pacientes e às famílias que os cercam.
De alguns anos para cá, graças a muitos pesquisadores, a “tal palavra” tem sido mais pronunciada, discutida e aceita. Isto porque a ciência tem feito importantes descobertas de novos tratamentos, diagnósticos precoces e, principalmente, de ações de prevenção.
No livro Revolução Imunológica, bestseller no Japão, o cientista e professor da Universidade de Nigata, Toru Abo, traz informações inusitadas a respeito do câncer. Ele afirma que a enfermidade acomete pessoas que sofrem com estresse e que não levam um estilo de vida saudável. O pesquisador afirma ainda que o fortalecimento imunológico é o que realmente fará a diferença na prevenção do câncer. “Enxerguei as verdadeiras causas do câncer a partir do estudo da imunologia”, diz ele.
E ele vai além: afirma que as atuais terapias não curam a doença (como a radioterapia, a quimioterapia e a cirurgia) e que alguns sintomas, como febre e até a metástase seriam “sinais” de que o corpo está reagindo e podendo até se curar. Pesquisas e teorias são muitas. Há aquelas que inclusive dizem que pessoas que guardam mágoas também são mais suscetíveis ao câncer.
Apesar das pesquisas e da ciência caminharem a passos lentos no que diz respeito à prevenção, já há alguns estudos dignos de comemoração. Um deles está sendo desenvolvido na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, em conjunto com a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo.
Os pesquisadores dessas universidades estudam, desde 2011, substâncias presentes no extrato de três espécies de orquídeas. E o que é mais animador: já confirmaram que uma fração do extrato de uma dessas orquídeas (a Miltoniaflavescens) contém uma substância capaz de combater células cancerígenas do ovário. O professor da UEM, Doutor em Química Orgânica e responsável pela pesquisa, Armando Pomini, explica que a suspeita é de que essas substâncias interajam com as enzimas responsáveis pela multiplicação do DNA nas pessoas acometidas pelo câncer. Se essa multiplicação não acontece, a célula também não consegue se multiplicar.
O pesquisador, no entanto, faz um alerta: as substâncias passam por um amplo e demorado processo de purificação antes de serem testadas nas células. Portanto, não se deve utilizar a orquídea popularmente ou indiscriminadamente. Após a purificação, que demorou cerca de sete meses, retirou-se um pó, o qual teve sua estrutura molecular analisada. “É altamente desaconselhável o uso das plantas in natura ou na forma de chás ou outros procedimentos, pois são plantas reconhecidamente tóxicas quando ingeridas pelo ser humano”, alerta.
Pomini ressalta que aproximadamente 80% das substâncias que são utilizadas nos hospitais para tratamento dos mais variados tipos de câncer são provenientes de fontes naturais, principalmente plantas e microrganismos. Ele lembra ainda que pesquisas científicas como a da orquídea podem levar cerca de 30 anos para que os seus resultados sejam aplicáveis adequadamente em medicamentos para serem consumidos pelos seres humanos.
A orquídea  Miltoniaflavescens, que contém a substância capaz de combater células cancerígenas
A orquídea Miltoniaflavescens, que contém a substância capaz de combater células cancerígenas
POR QUE A ORQUÍDEA?
 Na UEL os pesquisadores realizam a multiplicação de orquídeas nativas do Brasil em laboratório desde 1997. Segundo Ricardo Faria, Pós- Doutor na área de Floricultura e professor da pós-graduação do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), na natureza a germinação é inferior a 5% e com a técnica de propagação in vitro a porcentagem de germinação em meios nutritivos contendo açúcar, adubos e carvão é superior a 95%. “Desse modo foi possível determinar as condições de manejo para cultivo de várias espécies selvagens em estufa,tornando-as domesticadas”, explica. Assim é possível produzi-las em estufas sem fazer a retirada da natureza, onde as orquídeas devem ser conservadas.
Mas por que, afinal, utilizar a orquídea para pesquisas de cura do câncer? Segundo Pomini, a ideia foi “sair do lugar comum”, já que no planeta existem aproximadamente 40 mil espécies de orquídeas nativas e 500 mil híbridas. No Brasil e na Colômbia está o maior número de espécies catalogadas. Porém, apenas cinco já foram estudadas. As três espécies estudadas na UEM foram testadas em dez tipos de câncer. Pomini estima que das 40 mil espécies em todo o mundo, apenas dez foram estudadas em relação ao seu potencial anticâncer. Todas são originárias de países da Ásia.
O resultado positivo obtido com essa orquídea incentivou os pesquisadores a procurarem outras espécies para análise. Uma delas é rara e encontrada de forma endêmica no norte do Paraná, sendo ameaçada de extinção; a outra é nativa da Amazônia. Porém, os nomes dessas espécies ainda não foram divulgados porque as substâncias não foram ainda patenteadas – a única substância com patente é a obtida da orquídea Miltoniaflavescens.
Os trabalhos foram desenvolvidos pelos mestrandos em química Josiane Monteiro e Thiago Almeida e pelas graduandas Leticia Porte e Greice Lopes. Em ambos os casos, as plantas foram cedidas pelo professor Ricardo Faria, da UEL, e os testes foram feitos na Unicamp.
O DNA E O DIAGNÓSTICO PRECOCE DO CÂNCER
 No ano de 2013, a atriz americana Angelina Jolie causou surpresa no mundo todo ao fazer uma cirurgia de retirada das mamas, após revelar que fez um exame para verificar o traço genético (ou familiar) do câncer. Este exame busca detectar uma espécie de “defeito” no gene BRCA1. Se isso ocorre, a pessoa tem 85% de chances de desenvolver câncer. No caso do BCR1, o “defeito” pode ocasionar câncer de mama ou ovário, principalmente.
Detectar o defeito do gene só é possível porque hoje os médicos conseguem ter acesso ao diagnóstico da hereditariedade pelo DNA da pessoa. Ou seja, por meio do sangue ou da saliva é possível fazer o teste genético no paciente. Para muitas pessoas, fazer esse exame pode parecer um exagero, uma tentativa de antecipar um diagnóstico. No entanto, para os médicos trata-se apenas de prevenção, como uma “ajudinha” da ciência. “É melhor enfrentar o risco do que a doença”, opina o oncogeneticista do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), José Claudio Casali.
Com o teste do DNA, os médicos têm nas mãos quatro possibilidades. A primeira é a identificação de um possível traço familiar de câncer, o que possibilita uma prevenção adequada. A segunda possibilidade é verificar se a pessoa que já teve câncer pode ou não desenvolver novamente a doença. A terceira – explica Casali – seria todos os membros da família fazerem o exame e verificar a probabilidade dos filhos desenvolverem câncer. A quarta possibilidade pode evitar a transmissão do traço genético para os filhos. Neste caso, é possível usar a mesma técnica do bebê de proveta e “criar” uma criança sem o “defeito” no BRCA1.
Pesquisas pelo DNA ajudam a identificar sinal até nos familiares
Pesquisas pelo DNA ajudam a identificar sinal até nos familiares
OUTRAS FORMAS DE PREVENÇÃO
 Prevenção, por meio de uma vida mais saudável, exercícios físicos, dieta equilibrada e pensamento positivo pode reduzir em até 35% o risco de defeito do gene BCR1. Os médicos lembram que apenas 10% dos cânceres são de origem genética e cerca de 90% surgem por conta do meio ambiente (envelhecimento das células e exposição a fatores de risco, como tabaco e álcool).
“As pessoas já perceberam que o câncer pode não ser fatal. Elas perceberam, sim, que podem mudar o seu filme. E a prevenção pode ser eficaz. O resultado que temos com o DNA é um diagnóstico, e não uma sentença. E esse diagnóstico tem que vir com uma ação de prevenção”, afirma Flavio Tomasich.
O cirurgião do Hospital Erasto Gaertner, Flavio Tomasich, também afirma que as pesquisas genéticas são muito esclarecedoras. Ele lembra, inclusive, que todos os cânceres provêm de falhas genéticas – o que é bem diferente do traço familiar. “Com as pesquisas genéticas é possível definir melhor os indivíduos que vão ter câncer e, com isso, podemos acompanhá-los melhor”, comenta. Na sua área, que é o trato com o aparelho digestivo, ele comenta que os testes genéticos não permitem uma prevenção tão efetiva quanto nos casos de mama.
Com as pesquisas genéticas é possível definir melhor os indivíduos que vão ter câncer e, com isso, podemos acompanhá-los melhor. Flavio Tomasich – Cirurgião do Hospital Erasto Gaertner
Maria Amélia Busato
Maria Amélia Busato
DECISÃO DIFÍCIL
 Este foi o caso da dentista de Curitiba (PR) Maria Amélia Busato. Em sua família ocorreram oito casos de câncer de mama, inclusive o de sua mãe, que fez a remoção. A irmã, falecida com 36 anos, também enfrentou a dor de uma metástase de um câncer que iniciou nos seios. Maria Amélia não pensou duas vezes: no ano de 2012, ela, a mãe e outra irmã fizeram o exame para detectar o traço genético. Ela e a mãe tiveram o resultado positivo e a irmã, negativo.
O exame apresenta uma escolha. Ou você faz a cirurgia ou faz um controle muito maior. Eu optei pela cirurgia. Maria Amélia Busato – Paciente
Depois de seis meses de muita conversa com o marido, a dentista decidiu fazer a chamada mastectomia preventiva, retirando as duas mamas. “Eu só pensei na minha família. Eu não queria que eles passassem novamente pelo sofrimento. Tive o apoio do meu marido, da minha mãe e da minha irmã. Foi um procedimento dolorido, mas tudo passa”, relembra.
A diminuição da gordura animal e o aumento da ingestão de frutas, verduras e peixes também auxiliam na prevenção do câncer. Sérgio Hatschbach – Chefe do Serviço de Ginecologia e Mama do Hospital Erasto Gaertner, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e médico do IOP
RECONSTRUÇÃO DAS MAMAS
 Um dos tipos de câncer que mais cresce no Brasil é o de mama. Estima-se que em 2014 surjam cerca de 57 mil casos no país. Dez mil só na região Sul. Dois fatores levam a isto, segundo o chefe do Serviço de Ginecologia e Mama do Hospital Erasto Gaertner, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e médico do IOP, Sérgio Hatschbach: o crescimento no número de realizações de exames e diagnósticos e o aumento da população em envelhecimento.
Em casos positivos, dois são os procedimentos cirúrgicos para combater o câncer de mama. A mastectomia é a mais radical, com a retirada total da mama, geralmente após o exame do traço genético. A denomastectomia é a retirada apenas da glândula mamária da paciente, continuando o risco, mas de forma reduzida. A cirurgia oncoplástica, segundo Hatschbach, permite fazer a cirurgia estética juntamente com a cirurgia em si.
Outra novidade, agora no campo de diagnóstico precoce e prevenção, é em relação às axilas. Era comum os médicos esvaziarem os gânglios das axilas como forma de prevenção de edemas de braços. Com o avanço das pesquisas, os médicos encontraram o chamado linfonodo sentinelo, que é o primeiro linfonodo da axila que geralmente é acometido no câncer de mama. “Durante a cirurgia, hoje conseguimos verificar se o linfonodo sentinelo está comprometido ou não. Só fazemos o esvaziamento se ele estiver comprometido”, explica o médico.
DIAGNÓSTICO PRECOCE TAMBÉM É PREVENÇÃO
Técnicas têm proporcionado fazer diagnósticos de lesões bem pequenas, de carcinomas que ainda não se espalharam pelo corpo e nem na mama.
Mamografia digital – é ainda o que há de mais moderno a se fazer acima dos 35 anos para quem tem risco, e dos 40, para acompanhamento de rotina.
Mamografia digital com tomossíntese – possibilita a ampliação dos tumores e cortes detalhados, o que facilita a visualização e o diagnóstico mais preciso.
Ressonância magnética – já há aparelhos que possibilitam análises das punções em biopsias de tumores em estágio inicial com margem de erro de apenas um milímetro.
Tania Gomez
Tania Gomez
RECUPERAÇÃO DA AUTOESTIMA
 “O câncer não avisa. Ele chega rápido. Você precisa ficar atento”. As palavras da pedagoga e hoje palestrante sobre câncer, Tania Gomez, levam a crer que realmente a doença é assustadora. “Da manhã para a tarde, uma mamografia mudou a minha vida. Mas consegui retirar as mamas, as reconstruí, graças ao diagnóstico precoce”, alerta.
Tania chegou a fazer quimioterapia, radioterapia e fisioterapia, além de tomar remédios por dez anos. No momento em que descobriu a doença, fazia dois anos que estava casada pela segunda vez. Foi um susto. Mas a reconstrução mudou tudo. “Não foi fácil. Mas retomei minha autoestima. Eu recomendo a todas as mulheres que façam a reconstrução, se for possível. A mama é um elemento importante na identificação como mãe e como mulher”, diz.

Casos de Câncer em Mulheres
Casos de Câncer em Mulheres

Casos de Câncer em Homens
Casos de Câncer em Homens


Fonte: Fundação Araucária - http://www.paranafazciencia.com.br/

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