O
uso da energia nuclear numa técnica de controle do Aedes aegypti está em teste
pela Fiocruz Pernambuco e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em
Fernando de Noronha. A área escolhida foi a Vila da Praia da Conceição, onde
mosquitos machos, esterilizados com radiação gama, estão sendo liberados no
ambiente, para competir com os selvagens no acasalamento. Ao vencerem essa
disputa, eles passam espermatozóides inviáveis, que são utilizados pelas fêmeas
durante todo o seu processo de postura dos ovos, sem gerar novas larvas do
inseto. Como a fêmea do mosquito costuma ficar disponível para acasalar apenas
uma vez ao longo de sua vida, o cruzamento com machos estéreis acaba impedindo
sua reprodução. A partir do uso dessa tecnologia, é esperada uma diminuição da
densidade populacional do Aedes.
Desenvolvido em colaboração com o Grupo de Estudos em
Radioproteção e Radioecologia (Gerar) do Departamento de Energia Nuclear da
Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE), os mosquitos são produzidos em
massa no insetário da Fiocruz PE e, ainda na fase de pupa (a última antes da
fase adulta/alada), são esterilizados no Irradiador Gammacel, do DEN/UFPE, cuja
fonte radioativa é o Cobalto 60.
A iniciativa utiliza uma sub-população de mosquitos da
própria ilha, buscando preservar suas características genéticas, que já estão
adaptadas às condições ambientais do local.
Outra instituição parceira é a Secretaria de Saúde do
Distrito de Fernando de Noronha. Iniciado em 2013, o projeto já tem como
produtos a formação de recursos humanos a nível de mestrado (já finalizado) e
doutorado (em andamento). A primeira fase da pesquisa já determinou que a dose
de irradiação necessária para tornar os machos inférteis fica entre 40 e 50 Gy,
sem comprometer outros aspectos importantes para a sua sobrevivência e para os
objetivos do projeto, como a longevidade e o bom desempenho no acasalamento. Os
testes, realizados no insetário do Departamento de Entomologia da Fiocruz PE,
simularam a situação de campo, colocando machos estéreis com machos selvagens e
fêmeas em grandes gaiolas, tanto para observar se os machos irradiados
mantiveram suas qualidades competitivas, como para determinar a quantidade de
mosquitos a ser liberada no ambiente. A busca foi por obter uma quantidade
mínima ideal, que não se mostrasse excessiva nem insuficiente. A melhor
proporção observada foi de 10 mosquitos estéreis para cada selvagem (10:1).
A escolha de um ambiente de ilha para esse experimento
não se deu por acaso. Além das características geográficas de isolamento que
favorecem o estudo, existe uma ampla base de dados, gerada pelo sistema de
monitoramento do vetor que já está consolidado no local - o SMCP-Aedes,
desenvolvido pela Fiocruz PE e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe). Com 103 ovitrampas instaladas, o sistema mapeou, nos últimos três anos,
os locais e os períodos do ano de maior infestação, entre outras informações
que serão utilizadas nessa nova intervenção.
A etapa atual está centrada na liberação dos mosquitos em
quatro pontos da Vila da Praia da Conceição. De dezembro até a primeira
quinzena de fevereiro foram feitas nove liberações, cada uma com três mil
machos estéreis. Por outro lado, o número de ovitrampas para a coleta de ovos
de Aedes foi ampliado e cada imóvel situado nessa área (em torno de 25) conta
com uma armadilha. A coordenadora do projeto, a pesquisadora da Fiocruz PE
Alice Varjal, explica que o impacto da medida será avaliado pela quantidade de
ovos inviáveis que serão coletados. Será medida a fecundidade (quantidade de ovos
colocados) e a fertilidade (viabilidade dos ovos). As avaliações começam a ser
realizadas a partir do final de fevereiro, para verificar se a redução de cerca
de 70% da viabilidade dos ovos, observada em laboratório, também se confirmará
em campo.
A pesquisadora destaca uma característica do Aedes que é
estratégica para sua sobrevivência e que dificulta a obtenção de resultados
mais rápidos no controle do vetor. É a existência, em paralelo à população
ativa de mosquitos - que está visível e se multiplicando regularmente -, de uma
população inativa, representada pelos ovos dormentes (em um estado conhecido
como quiescência), com potencial para produzir larvas. Eles aguardam apenas que
os criadouros onde foram depositados, que estão temporariamente secos, voltem a
receber a água. "A técnica vai interferir nessa população inativa, mas não
de uma forma imediata. Só vamos observar o impacto de controle da densidade
populacional do mosquito ao longo do tempo e com a continuidade da soltura dos
machos estéreis", declara Alice.
Fonte: Portal EBC

Nenhum comentário:
Postar um comentário