sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Estudo do Paraná é a 1.ª etapa para entender como o vírus zika age no organismo da gestante

A descoberta de que o zika vírus ultrapassa a placenta e dessa forma contamina o bebê na barriga da mãe foi um passo para entender como se dá a relação entre a doença e a microcefalia – que já soma 224 casos relacionados à infecção congênita confirmados e tem 3.381 em investigação. Agora, o desafio dos pesquisadores é descobrir como o vírus sai das células placentárias e age no ataque ao tecido do sistema nervoso do embrião, causando malformações. Desvendar esse quebra-cabeça é essencial para montar estratégias que consigam bloquear a ação do zika e proteger os bebês em gestação.
Uma das autoras do estudo, a médica patologista Lúcia de Noronha, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que os testes mostraram a presença de partículas do vírus em células de Hofbauer, que fazem a defesa do bebê e ajudam na manutenção da placenta. A suspeita é que ele aja de forma semelhante ao HIV e utilize a célula como um “cavalo de Troia” para contaminar o embrião.

Ação do vírus

Outra questão que aflige os pesquisadores é qual o tempo de ação do zika. Mulheres que foram contaminadas pelo vírus podem vir a ter um filho com malformações tempos depois? E as que foram infectadas durante a gestação e tiveram o bebê com microcefalia correm o risco de ter um filho com a mesma malformação? “Não sabemos. Porque ainda não se sabe se há o risco de se desenvolver uma infecção crônica. Estamos estudando”, diz a virologista Cláudia Duarte dos Santos.
A diferença é que o zika é muito agressivo para a placenta. “O zika destrói a placenta, coisa que o HIV não faz”, diz Lúcia. Ela explica que o vírus causa uma inflamação no órgão, chamada de placentite – um sinal de que a barreira de proteção foi rompida. De acordo com Lúcia, evitar essa inflamação e que o vírus rompa a barreira placentária é essencial para impedir que o bebê seja contaminado pelo zika.
Essa ação já é feita para outras doenças congênitas que também causam malformações nos bebês, caso da sífilis, da toxoplasmose e do citomegalovírus. Mas, cada caso é um caso, destaca Lúcia. Se as pesquisas forem mesmo nessa linha, será preciso desenvolver um medicamento próprio para inibir a ação do zika na placenta.

Pesquisas

Para desenvolver qualquer ação terapêutica, porém, ainda será necessário percorrer um longo caminho de pesquisas. “A descoberta que fizemos foi só um passo. Ainda é cedo para falar em formas de bloqueio”, comenta a virologista Cláudia Duarte dos Santos, pesquisadora do Instituto Carlos Chagas, da Fiocruz no Paraná. Desde o início na linha de frente das pesquisas sobre o zika, Cláudia também é autora do estudo que mostrou que o vírus ultrapassa a barreira placentária.

Como o vírus age no tecido nervoso do bebê?

Agora que já se sabe que o zika ultrapassa a barreira da placenta, os pesquisadores tentam descobrir como ele age no tecido nervoso do embrião para causar a malformação.

Como o vírus utiliza as células placentárias para chegar ao embrião?

As pesquisas mostraram partículas do zika nas células de Hofbauer, que atuam na imunidade do bebê e na manutenção da placenta. A suspeita é que o zika utilize essa célula para chegar ao embrião. Mas ainda é preciso comprovar que isso ocorre e mostrar como se dá essa ação.

Qual o nível de transmissão do zika de mãe para filho?

Os pesquisadores também tentam entender se todas as mães que forem contaminadas pelo zika na gestação passarão a doença para o filho.

Mulheres que tiveram zika antes de engravidar correm o risco de ter filhos com microcefalia relacionada ao zika?

É pouco provável que isso ocorra, mas ainda não é possível dizer que isso é impossível. Os cientistas também buscam descobrir se mães que tiveram bebês com microcefalia relacionada ao zika correm o risco de terem um segundo bebê com o mesmo problema, também devido ao vírus.

Existe um padrão de má-formação dos bebês com microcefalia relacionada ao zika?

No caso de microcefalia relacionada ao zika, os médicos e pesquisadores estão tentando estabelecer se existem má-formações típicas. Já se detectou, por exemplo, problemas oculares graves nessas crianças. Há também casos de lesões em algumas partes do cérebro, sem que isso tenha afetado o tamanho do crânio.

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