Mostrando postagens com marcador restruturação do setor de próteses. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador restruturação do setor de próteses. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ministro da Saúde defende reformulação do setor de próteses


O Brasil ainda não tem um marco legal para a definição conceitual de órteses e próteses, a falta de nomenclatura específica impede a padronização de preços desses produtos, que também não contam com sistema adequado de registro e monitoramento. Os protocolos atuais de uso são frágeis e precisam ser aperfeiçoados. Há ainda uma extrema assimetria nos preços de mercado, o que faz com que sejam vendidos por valor bem mais alto nas regiões menos desenvolvidas do país, onde se concentram os usuários mais pobres.
Essas observações foram feitas nesta terça-feira (14) pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro, em audiência pública na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Próteses, que apura denúncias de fraude na produção e venda desses equipamentos, com prejuízo para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Chioro ressaltou que um grupo interministerial avalia desde janeiro medidas para aperfeiçoar o setor, que também sofre com a excessiva incidência de tributos, a burocratização do complexo aduaneiro e a falta de aperfeiçoamento no banco de preços adotados por hospitais.
— Temos uma variedade de registros, 44 mil registros, sem contar uma infinidade de modelos de cada prótese sem padrão de nomenclatura. A mesma placa ortopédica para fixar próteses tem um tamanho de furo que varia de produtor, o que acaba induzindo o uso de um modelo específico. É um setor em que a definição da nomenclatura é decisiva para entender o padrão de uso. Estamos lidando com um problema complexo — afirmou.
O ministro da Saúde disse que a legislação atual, oriunda dos anos de 1970, e resoluções da Vigilância Sanitária não dão conta de enfrentar o problema, que também atinge países como os Estados Unidos e França, que avançam com dificuldades no processo regulatório, em razão do alto valor agregado desses equipamentos. Chioro disse que há uma tentativa internacional de substituir a nomenclatura atual de prótese pelo conceito de Dispositivos Médicos Implantáveis.
— A definição engloba o material usado na sua implantação, e os instrumentos necessários para essas cirurgias. Isso não está claro hoje. Os conceitos são amplos. Há lacunas no processo de monitoramento. Quando se registra o produto, não se declara o conjunto de modelos do produto. Um único registro pode significar dezenas de modelos a partir de um produto que terá no mercado nomenclaturas diferentes daquela da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Diferente dos remédios, que têm que guardar uma relação — afirmou.
Chioro admitiu que algumas ações de governo não têm sido capazes de inibir problemas na venda desses dispositivos. Ele citou operação da Anvisa que identificou uso de material inadequado na fabricação de próteses, em 2007; o uso de silicone industrial em próteses mamarias francesas, em 2012; auditoria do SUS em 20 hospitais, que indicou a restituição de mais de R$ 500 mil, em 2013; e o início de projeto piloto para implantação do registro nacional de implantes, em 2014.
Chioro contou que o setor de próteses é representado por grandes empresas globais que convivem com pequenas e medias empresas nacionais. Os países emergentes têm tido crescimento acima da média na utilização dos produtos. Há projeção de crescimento de 15% ao ano nos próximos cinco anos, em razão de mudanças no padrão demográfico e epidemiológico, afirmou.
De acordo com o ministro da Saúde, a Johnson & Johnson é a grande líder do mercado de próteses. A Siemens vem em segundo lugar, e não há nenhuma empresa brasileira na relação das vinte maiores em atuação no mercado mundial, que respondem por 54% dessa demanda e movimentam 57 bilhões de dólares.
No Brasil, em 2014, o gasto do SUS com próteses ficou acima de R$ 1 bilhão – R$ 730 milhões com equipamentos cardiovasculares, e R$ 210 milhões em dispositivos ortopédicos. Noventa por cento das empresas do setor são de pequeno porte. O Brasil também exporta sua produção para a América do Sul, México e alguns países africanos, e compra equipamentos principalmente dos Estados Unidos, Alemanha e China.
— É crescente a tecnologia disponível no mercado, com processo continuo de inovação. O ciclo de vida da tecnologia nova não passa de 24 meses. A cada dois anos, a tecnologia usada hoje é superada. É um setor marcado pela inovação incremental. O aumento da demanda pela incorporação das novas tecnologias tem altíssimo custo. Isso é um problema para identificar, devido as limitações orçamentárias. O tema é decisivo para explicar a judicialização surgida no país. Talvez a grande demanda tenha surgido a partir desses dispositivos — afirmou.
Relator da comissão, o ex-ministro da Saúde e senador Humberto Costa (PT-PE) apontou para a complexidade do tema. Ele avaliou que a questão das próteses exige uma solução ampla, vista a dependência tecnológica nacional e um déficit expressivo desses equipamentos na balança comercial.
Sem um esforço de padronização, disse Arthur Chioro, nenhuma entidade pública ou privada conseguirá fazer um processo adequado de fiscalização e monitoramento das próteses comercializadas no país. A assimetria de informações no setor beneficia apenas quem domina um saber específico, a exemplo do especialista responsável pela indicação do equipamento.
— O ato profissional é decidido pelo especialista, que indica a marca ou o distribuidor dos dispositivos, quando deveria indicar apenas o procedimento e  trabalhar com conjunto o equipamento disponível a partir de padronização da instituição. A escolha do produto pelo especialista pode gerar incentivo financeiro pela indicação da marca ou distribuidor — afirmou.
Em resposta ao presidente da CPI, senador Magno Malta (PR-ES), o ministro da Saúde apontou a existência de empresas que dificultam a entrada no mercado “de outras empresas que favorecem uma estratégia concorrencial”. Ele observou que a regulação de preço das próteses é apenas um das questões a ser enfrentada pelas autoridades, que precisam atuar ainda em reformas estruturais no setor. Ele disse ainda que alguns hospitais chegam a ter margem na venda de próteses não prevista na legislação.
Chioro citou ainda estudo disponibilizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados, que mostra as margens agregadas na cadeia do setor usando como exemplo uma prótese de joelho. O equipamento custa R$ 2.096 para a indústria, mas chega ao consumidor final por R$ 18.362, após a soma de tributos, comissões sobre a venda e margens do distribuidor, muitas das quais com valor acima dos custos de produção do equipamento.
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
Fonte: Agência Senado

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Simepar faz sugestões para reestruturar setor de próteses no Brasil

Em relação à reportagem veiculada no programa "Fantástico" da Rede Globo, no domingo (4), que denunciou a "Máfia das Próteses",  o Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná - Simepar faz uma avaliação das denúncias e uma série de sugestões ao Ministério da Saúde, visando à  reestruturação do setor de órteses, próteses e materiais especiais (OPME). 


O presidente da entidade, Mario Antonio Ferrari, afirmou que se a postura ofensiva aos enunciados do Código de Ética Médica for comprovada, os profissionais devem ser enquadrados nas penalidades impostas pelo regramento ético. Já se da postura ocorrerem infrações a dispositivos penais, civis e administrativos, cabe ao Ministério Público apresentar a denúncia e ao Judiciário, o pronunciamento final.


O vice-presidente do Sindicato, Marlus Volney de Morais, compartilha do posicionamento do presidente da entidade, e declara que o Simepar faz a defesa intransigente da relação médico/paciente com foco na melhor qualidade disponível para solucionar as necessidades em saúde das pessoas, objetivo do trabalho médico. Ainda, pede a condenação de corruptores e corrompidos que tenham optado voluntariamente pela indicação de procedimentos, materiais e medicamentos que não tragam benefícios aos pacientes, segundo os conhecimentos médicos atualizados, conforme a notícia do "Fantástico", ao apresentar casos de procedimentos desnecessários.

Sugestões

Para reduzir a atuação inadequada de profissionais e empresas no setor de órteses e próteses e contribuir para a reestruturação do segmento, o Simepar sugere que qualquer empresa que comercialize produtos médicos tenha obrigatoriamente um profissional médico ou enfermeiro que responda tecnicamente pelos produtos. Toda a tecnologia nova deve ser licenciada pela Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária e aprovada pela Conitec - Comissão Nacional de Avaliação e Incorporação de Tecnologia em Saúde. Além disso, o Sindicato propõe a constituição de uma comissão reguladora que avalie os resultados em saúde das instituições contratadas pelo SUS e pela Saúde Suplementar, determinando indicadores de saúde que demonstrem a capacidade de atendimento qualificado na assistência à saúde como, por exemplo, as necessidades de revisão do uso de próteses.

O Simepar também recomenda uma comissão autorizadora de abertura de empresas para fornecimento de tecnologia em saúde e que estas utilizem, obrigatoriamente, os pareceres da  Conitec e sigam as determinações da Anvisa e do Ministério da Saúde. Pacientes e beneficiários devem ter conhecimento dos indicadores em saúde de cada profissional ou prestador registrado no CNES - Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde, e as empresas e os profissionais devem declarar abertamente os financiamentos feitos ou recebidos para participação em congressos, viagens, fornecimento de brindes e qualquer outra forma que represente vantagem para os prestadores de serviços de saúde.

Segundo o Simepar, o Judiciário deve contratar um grupo de médicos com a finalidade exclusiva de oferecer pareceres isentos para a análise dos pedidos de liminares. Também entende que há necessidade de que os preços de produtos equivalentes no exterior devam ser balizadores para a definição do valor dos produtos no Brasil e que qualquer discrepância deva ser explicitada com comprovação. Propõe a criação de uma sistemática de oferta de denúncia para que qualquer  evidência de fraude ou de corrupção possa ser apresentada e devidamente investigada.

Consequências

Ferrari afirma ainda que uma das consequências dessa situação é o impacto na relação médico/paciente. "A forma sensacionalista como matérias na esfera da saúde são apresentadas, interferem na confiança que deve existir nessa relação", argumenta. Por outro lado, a questão ainda leva a um aumento de custos tanto para as operadoras de planos de saúde quanto para o SUS. "Esse aumento de custos desnecessários dificulta a correção dos honorários dos demais profissionais e ainda desencadeia o repasse desses custos para os usuários/consumidores".

Morais completa que a postura não compatível com a ética provoca sofrimento e custos desnecessários ao paciente e a seus familiares. Ainda como consequência, o vice-presidente do Simepar, cita o aumento das despesas administrativas das empresas e o consumo das verbas públicas que, destinadas ao atendimento dos processos de judicialização, acabam por consumir recursos que atenderiam a programas voltados a populações mais numerosas. No caso das operadoras de planos de saúde, o aumento de custos repercute no aumento das contraprestações que são pagas pelo beneficiário, que é novamente penalizado. Segundo o governo federal, a judicialização na saúde afeta o país como um todo. Entre 2009 e 2011, os gastos com ações contra a União saltaram de R$ 95 milhões para 355 milhões.

Penalidades

Para o presidente do Simepar, cabe aos conselhos de medicina procederem de acordo com a legislação em vigor, segundo as regras do Código de Ética Médica e as do Código de Processo Ético. “Aliás, o Conselho Federal de Medicina tem editado Resolução disciplinando a questão”, lembra. Quanto ao Judiciário, as decisões poderiam ser temperadas, não só levando em conta os direitos humanos em geral e, em especial, princípio do direito à saúde. “As decisões poderiam ser balizadas a partir da consideração aos princípios da bioética. A justiça da decisão, ao atender um indivíduo, não pode propiciar a desatenção ou desassistência de uma coletividade”, observa Ferrari.   

Em relação à intervenção do Simepar no assunto, Morais afirma que a entidade funciona como órgão que preserva os bons profissionais, lutando para que tenham condições de trabalho e renda adequadas. Aqueles que se sentirem constrangidos por propostas ou práticas aéticas ou que delas tenham conhecimento, podem e devem utilizar as entidades médicas para resguardar o bom conceito da profissão e preservar a boa prática médica.